O reconhecimento da ciência brasileira ganhou um marco inédito com a premiação do doutor em Enfermagem Darlisom Ferreira no Prêmio Jovem Cientista. Pela primeira vez na história, um enfermeiro foi agraciado com a honraria, destacando-se na categoria “Mérito Cientifico”. Darlisom Ferreira, professor e pesquisador há mais de 15 anos, tem dedicado sua carreira ao ensino, à pesquisa e ao avanço da profissão nas regiões amazônicas.
Um dos grandes feitos do cientista foi sua atuação na criação do primeiro doutorado profissional em Enfermagem da Região Norte do Brasil. Esse avanço só foi possível graças a um convênio entre o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), reforçando a importância do investimento em pesquisa para o fortalecimento da profissão.
Ao receber o prêmio, Dalisom ressaltou a relevância da educação pública em sua trajetória. “A Enfermagem, por meio da educação pública, me proporcionou tudo na vida. Ingressei na UEA, fui coordenador de curso, diretor de unidade, pró-reitor e, hoje, jovem cientista. Expresso minha gratidão ao reitor André Zogahib e, em seu nome, aplaudo os investimentos públicos em pesquisas e políticas voltadas aos povos indígenas, do campo, da floresta e das águas. Que os resultados de nossas investigações retornem sempre a esses atores sociais, fortalecendo a qualidade de vida e promovendo justiça social”, afirmou.
Em entrevista exclusiva à Invest Amazônia Brasil, Darlisom Ferreira detalha sua trajetória, os desafios da Enfermagem como ciência e a importância de produzir conhecimento que verdadeiramente impacte as populações mais vulneráveis.
A tecnologia como ponte para o acesso à saúde
Para Darlisom, a ciência precisa estar a serviço das comunidades e se conectar com as realidades locais. Ele reforça que a pesquisa deve ser participativa, considerando as particularidades de cada população.
“Não existe produzir conhecimento sobre nós, sem nós. É fundamental dar voz às comunidades. Os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tantos outros grupos precisam ser incluídos no processo de produção científica. O conhecimento não pode ser construído à distância – ele precisa partir do cotidiano dessas pessoas e gerar impacto real em suas vidas”, explica.
Foi com essa perspectiva que Darlisom Ferreira desenvolveu diversas iniciativas para a inclusão digital na saúde. Entre os projetos que coordenou, um dos mais relevantes é um aplicativo móvel voltado para enfermeiros da Estratégia Saúde da Família, que auxilia na aplicação de metodologias ativas em práticas educativas. Segundo ele, a tecnologia tem um papel essencial na aproximação entre profissionais de saúde e a população, ajudando a tornar as informações mais acessíveis e compreensíveis.
“O aplicativo foi criado para facilitar o trabalho dos enfermeiros na atenção primária. Com ele, conseguimos capacitar profissionais e, ao mesmo tempo, garantir que o conhecimento chegue até a população de maneira mais clara e interativa. A tecnologia não substitui o contato humano, mas pode ser uma ferramenta poderosa para qualificar a assistência em saúde”, detalha.
Educação e combate à desinformação
Além de seu trabalho acadêmico e tecnológico, Darlisom também se dedica a iniciativas voltadas para a disseminação de informações em saúde. Um exemplo disso é o projeto “Espia Só”, um programa de extensão que utiliza vídeos e conteúdos digitais para promover educação em saúde e combater a desinformação.
“A comunicação é um pilar essencial da saúde pública. Muitas pessoas não têm acesso a informações confiáveis e acabam recorrendo a fontes pouco seguras. O ‘Espia Só’ nasceu para preencher essa lacuna, trazendo conteúdos educativos acessíveis e de qualidade. Produzimos vídeos que são divulgados nas redes sociais, sempre com uma linguagem simples e direta, para que qualquer pessoa possa entender e aplicar no dia a dia”, destaca.
Essa iniciativa é especialmente importante em um cenário em que fake news sobre saúde se espalham rapidamente, muitas vezes colocando a população em risco. Para Darlisom Ferreira, um dos desafios da ciência hoje é saber traduzir o conhecimento acadêmico para o público em geral, garantindo que a informação correta chegue a quem mais precisa.
A Amazônia como centro de inovação
A relação de Darlisom com a Amazônia vai além da pesquisa científica. Nascido em Santarém (PA), ele conhece de perto os desafios enfrentados pelas comunidades amazônicas no acesso à saúde e à educação. Essa vivência tem sido um dos principais motores de sua atuação.
“A Amazônia não pode ser vista apenas como um cenário de dificuldades, mas sim como um espaço de inovação. Precisamos investir em soluções que considerem as características da região e valorizem os saberes locais. É isso que busco em minha pesquisa: unir tecnologia, ciência e conhecimento tradicional para criar respostas mais eficazes para os desafios da saúde na região”, afirma.
Um dos exemplos desse compromisso é o programa Ajuri, iniciativa que promove inclusão digital para indígenas que vivem em áreas urbanas, ajudando essas populações a acessar informações e serviços de saúde por meio da tecnologia.
“A conectividade pode ser uma ferramenta de empoderamento. Muitos indígenas que vivem na periferia das grandes cidades enfrentam barreiras para acessar a saúde e a educação. Com o programa Ajuri, buscamos desenvolver soluções digitais que façam sentido para essa população, respeitando sua cultura e promovendo autonomia”, enfatiza.
O futuro da Enfermagem na ciência brasileira
A premiação no Prêmio Jovem Cientista é um marco não apenas para Darlisom Ferreira, mas para a Enfermagem como um todo. Ele acredita que essa conquista abre portas para que mais enfermeiros e profissionais da saúde assumam papéis de liderança na produção científica e na formulação de políticas públicas.
“A Enfermagem é a maior categoria da saúde no Brasil, mas ainda é pouco representada nos espaços de decisão e pesquisa. Precisamos mudar essa realidade. Enfermeiros estão na linha de frente do cuidado e têm um olhar único sobre os desafios da saúde pública. Se queremos inovação, é fundamental que essa expertise esteja presente na construção do conhecimento científico e nas estratégias de saúde do país”, reforça.
Darlisom Ferreira também destaca que o avanço da tecnologia na saúde deve ser acompanhado de um compromisso ético e social. Para ele, a inovação precisa ser inclusiva, garantindo que ninguém fique para trás.
“Inovar não é só criar algo novo, mas garantir que essa inovação gere impacto e beneficie a sociedade. Meu compromisso é continuar desenvolvendo soluções que ajudem a tornar a saúde mais acessível, justa e humanizada”, conclui.
A trajetória de Darlisom Ferreira não apenas fortalece a Enfermagem como ciência, mas também reforça a importância da inclusão digital e da tecnologia como aliadas na promoção da saúde. Sua conquista no Prêmio Jovem Cientista é um reflexo de um trabalho comprometido com a transformação social e a valorização do conhecimento científico na Amazônia e no Brasil.
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